EMPREENDEDORISMO
Contrato de Aluguel por Temporada: O Que a Lei Exige, Prazo de 90 Dias e Modelo Comentado
O contrato de aluguel por temporada é um documento que muitos proprietários de Airbnb nunca fizeram, mas que é a única proteção real contra danos, inadimplência e conflitos com hóspedes que o sistema da plataforma não cobre.

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A maioria dos proprietários que aluga pelo Airbnb parte do pressuposto de que o contrato da plataforma é suficiente. Para as reservas que correm bem, é. Para as que não correm, o contrato da plataforma tem limitações importantes: ele regula a relação entre você e a plataforma, não a relação direta entre você e o hóspede, e ele não cobre situações específicas como limite de hóspedes, proibição de festas, regras sobre pets, danos não cobertos pela garantia da plataforma ou horários de check-in e check-out além dos padrões.
O contrato de aluguel por temporada, previsto nos artigos 48 a 50 da Lei 8.245/91 (a Lei do Inquilinato), existe precisamente para preencher essas lacunas. Ele é celebrado entre o proprietário e o hóspede e define, com força legal, as condições específicas de cada hospedagem. Este artigo explica o que a lei exige, o que as cláusulas mais importantes significam na prática e como o contrato se encaixa na operação de aluguel por temporada em 2026.
O Que É a Locação por Temporada na Lei
A locação por temporada é uma categoria jurídica específica da Lei do Inquilinato. O artigo 48 define como locação por temporada aquela destinada à residência temporária do locatário, por prazo determinado, para uma das seguintes finalidades: lazer, realização de cursos, tratamento de saúde, realização de obras no imóvel principal do locatário, feiras, congressos e outros eventos similares.
O que isso significa para quem aluga pelo Airbnb: a hospedagem turística se enquadra na hipótese de lazer, que é a mais ampla e a mais usada. Isso dá ao contrato de temporada base legal sólida para regular esse tipo de hospedagem.
O que não é locação por temporada: estadia de mais de 90 dias, contratos sem finalidade temporária específica, ou contratos em que a destinação real é moradia permanente. Se essas situações ocorrerem, a locação pode ser re-caracterizada como residencial comum pela Justiça, com todas as proteções que o inquilinato dá ao locatário e que dificultam a retomada do imóvel pelo proprietário.
O Prazo de 90 Dias: O Limite Que Você Não Pode Ultrapassar
O prazo máximo do contrato de aluguel por temporada é de 90 dias corridos. Este é o limite estabelecido pelo artigo 48 da Lei 8.245/91 e ele tem uma consequência direta que todo proprietário precisa conhecer.
Se o hóspede permanecer no imóvel depois de 90 dias sem que o proprietário tome providências formais, o contrato se converte automaticamente em locação residencial padrão por prazo indeterminado, nos termos do artigo 50. Isso significa que o proprietário perde o direito de reaver o imóvel imediatamente: passa a se aplicar o regime da locação residencial comum, com todas as proteções ao inquilino, prazo para notificação e possibilidade de resistência à desocupação.
Como evitar essa situação:
Se quiser renovar uma estadia que se aproxima de 90 dias, formalize a renovação com novo contrato antes do vencimento do primeiro e certifique-se de que o total dos dois contratos não ultrapassa os 90 dias.
Se quiser que o hóspede saia exatamente na data acordada, inclua no contrato uma cláusula improrrogável com hora e data de saída e, se necessário, envie notificação formal antes do vencimento. O silêncio do proprietário é interpretado pela lei como concordância com a permanência.
Para estadias longas que ultrapassarão 90 dias, use a locação residencial padrão desde o início: não tente contornar o limite fragmentando o período em contratos menores sucessivos com o mesmo locatário para o mesmo imóvel, porque tribunais têm recaracterizado esse tipo de manobra.
O Que o Contrato de Temporada Deve Ter Obrigatoriamente
Independente do valor ou duração da hospedagem, o contrato precisa ter:
Qualificação completa das partes. Nome completo, CPF, RG, endereço, telefone e e-mail do locador (proprietário) e do locatário (hóspede). Para locatário estrangeiro, passaporte.
Descrição detalhada do imóvel. Endereço completo incluindo número e complemento, tipo de imóvel (apartamento, casa, quarto), metragem e número de cômodos.
Prazo determinado com data e hora. Data e horário exatos de início e de término. O artigo 48 exige prazo determinado: um contrato sem data de saída definida não é contrato de temporada, é locação por prazo indeterminado.
Finalidade da locação. Lazer, trabalho temporário, tratamento de saúde ou outra finalidade prevista na lei. Essa cláusula é importante porque documenta que a estadia tem caráter temporário.
Inventário do imóvel. Lista dos móveis, eletrodomésticos e utensílios que equipam o imóvel. O inventário é a base para cobrar indenização por danos: sem ele, é a palavra do proprietário contra a do hóspede.
Valor e forma de pagamento. O valor total do período (ou o valor por diária se preferir), quando e como será pago. Inclua se há taxa de limpeza e se ela está incluída no valor ou é cobrada separadamente.
Garantia e condições de devolução. Qual a garantia exigida, o valor e as condições de devolução ao término.
Regras de uso. O que o hóspede pode e não pode fazer no imóvel durante a hospedagem.
Assinaturas. Locador, locatário e duas testemunhas. Para validade mais robusta, especialmente em valores altos, o reconhecimento de firma das assinaturas é recomendado.
Cláusulas Que Protegem o Proprietário e Que o Airbnb Não Cobre
Além das cláusulas obrigatórias, existem situações específicas que o contrato próprio resolve de forma muito mais clara do que as políticas da plataforma:
Limite de hóspedes. Defina o número máximo de pessoas que podem ocupar o imóvel simultaneamente. O Airbnb registra o número de hóspedes declarado na reserva, mas não impede que o locatário traga mais pessoas. O contrato com cláusula de limite e multa por descumprimento dá base para cobrar ou para rescindir.
Proibição de festas e eventos. O Airbnb tem políticas contra festas, mas a aplicação no imóvel depende de você. Uma cláusula contratual com multa específica por organização de festas ou eventos no imóvel é mais direta e imediatamente acionável.
Política de pets. Defina se animais são permitidos, quais tipos e qual o porte máximo. Inclua cláusula de responsabilidade por danos causados por animais do hóspede.
Horário de check-in e check-out. Horários precisos para entrada e saída, com multa por atraso no check-out. Diária extra pelo atraso é uma alternativa que muitos contratos adotam.
Taxa de limpeza. Se cobrada separadamente, especifique o valor e se é devolvida em alguma condição.
Política de cancelamento. Quais as regras de reembolso caso o hóspede cancele a reserva com antecedência. Essa cláusula complementa a política de cancelamento da plataforma, mas só tem validade entre as partes no contrato próprio.
Pagamento Antecipado e Caução: O Que a Lei Permite
A locação por temporada é a única modalidade de locação em que a lei expressamente permite que o locador cobre o valor integral do período de forma antecipada, antes da entrada do hóspede. O artigo 49 da Lei 8.245/91 prevê essa possibilidade, que não existe no aluguel residencial comum.
Além do pagamento antecipado, o proprietário pode exigir garantia. As opções mais comuns são:
Caução em dinheiro: entre 1 e 3 vezes o valor do período de locação. O valor deve ser depositado em conta poupança em nome do hóspede e devolvido em até 30 dias após o término do contrato, descontados eventuais danos comprovados com documentação.
Caução em bens: veículo ou imóvel como garantia, menos comum mas previsto em lei.
Seguro-fiança: contratado pelo hóspede junto a uma seguradora.
Na prática, para hospedagens via Airbnb de curta duração (fins de semana, semanas), a combinação de pagamento antecipado via plataforma mais caução em dinheiro no check-in é o modelo mais usado. Para estadias mais longas (um mês ou mais), o seguro-fiança pode ser mais adequado.
O Airbnb Substitui o Contrato? Não Completamente
O sistema do Airbnb documenta a reserva, processa o pagamento, registra as avaliações e opera o programa de garantias da plataforma (AirCover). Para a maioria das hospedagens, isso é suficiente.
O contrato próprio se torna relevante quando:
O dano causado pelo hóspede ultrapassa o que o AirCover cobre ou o que a plataforma reembolsa no processo de resolução de disputas. A situação envolve comportamentos que precisam de base contratual para ação judicial, como ultrapassar o limite de hóspedes ou realizar festas. A estadia é longa (várias semanas), o valor é alto ou o imóvel tem características especiais que tornam o risco de dano mais relevante. Você quer definir condições que a plataforma não permite configurar (como pets de porte específico ou regras de uso específicas do imóvel).
O Que Mudou com o STJ em Maio de 2026
Em 7 de maio de 2026, a 2ª Seção do Superior Tribunal de Justiça decidiu, por 5 votos a 4, no REsp 2.121.055/MG, relatado pela ministra Nancy Andrighi, que a oferta de imóvel residencial em plataformas de curta temporada como o Airbnb exige autorização prévia de 2/3 dos condôminos em assembleia, com alteração da convenção do condomínio. Sem essa aprovação, o condomínio pode proibir, multar e buscar liminar para suspender a atividade.
O que isso muda na prática para proprietários que alugam pelo Airbnb em apartamentos:
Se o seu condomínio nunca discutiu o assunto em assembleia e a convenção não permite expressamente, a atividade está em risco jurídico após essa decisão. Se a convenção proíbe, o risco de ação judicial é alto. Se a convenção permite ou se o condomínio aprovou em assembleia com 2/3, a atividade continua regular.
Importante: a decisão se aplica a imóveis em regime de condomínio residencial. Para casas e imóveis independentes fora de condomínio, a decisão não tem impacto. A decisão não vincula obrigatoriamente o Judiciário por não ter sido proferida em recurso repetitivo, mas consolida o entendimento das duas turmas de direito privado do STJ e deve orientar as instâncias inferiores.
Tributação: Quanto Você Paga de Imposto Sobre o Aluguel por Temporada
Os rendimentos de aluguel por temporada são tributados como rendimentos de aluguel comuns, pela tabela progressiva do IR. Não existe uma alíquota única: o imposto varia conforme o total de rendimentos recebidos no mês.
O recolhimento é feito mensalmente pelo carnê-leão, até o último dia útil do mês seguinte ao recebimento. No ano seguinte, esses valores são incluídos na declaração anual do IRPF.
Com a Reforma Tributária, o IBS e a CBS passam a incidir sobre aluguéis de curta duração para quem tiver mais de 3 imóveis alugados e faturar mais de R$ 240 mil por ano com essa atividade. Abaixo desses dois limites simultâneos, a tributação continua sendo apenas o IR via carnê-leão, como é hoje. A transição vai até 2033.
Modelo de Contrato Comentado
O contrato de aluguel por temporada não tem formato único obrigatório, mas precisa cobrir as cláusulas descritas acima. O modelo abaixo é simplificado e comentado para facilitar a compreensão. Para contratos com valores elevados, períodos longos ou situações específicas, a revisão por advogado é recomendada.
CONTRATO DE LOCAÇÃO POR TEMPORADA (Art. 48 da Lei nº 8.245/91)
CLÁUSULA 1 — DAS PARTES
Locador: [Nome completo], [nacionalidade], [estado civil], CPF nº [xxx], RG nº [xxx], residente em [endereço completo].
Locatário: [Nome completo], [nacionalidade], [estado civil], CPF nº [xxx], RG nº [xxx], residente em [endereço completo].
Comentário: inclua telefone e e-mail de ambas as partes para facilitar a comunicação durante a hospedagem.
CLÁUSULA 2 — DO IMÓVEL
O Locador cede ao Locatário, para uso temporário e exclusivo, o imóvel situado em [endereço completo], composto por [descrição dos cômodos], devidamente descrito no Inventário em Anexo.
Comentário: o Inventário em Anexo é obrigatório. Liste todos os móveis, eletrodomésticos e utensílios, com estado de conservação de cada item. Fotos assinadas pelas partes reforçam a documentação.
CLÁUSULA 3 — DO PRAZO
A locação tem início em [data] às [hora] e término em [data] às [hora], sendo o prazo total de [número] dias, improrrogável.
Comentário: o prazo máximo é de 90 dias corridos. A palavra "improrrogável" é importante para evitar a conversão automática em locação residencial se o hóspede tentar permanecer além da data de saída.
CLÁUSULA 4 — DA FINALIDADE
A presente locação tem por finalidade [lazer / realização de curso / tratamento de saúde / outra finalidade prevista no Art. 48], sendo vedado o uso para moradia permanente ou outra finalidade não prevista neste contrato.
CLÁUSULA 5 — DO VALOR E DO PAGAMENTO
O valor total da locação é de R$ [valor], a ser pago antecipadamente em [forma e prazo de pagamento].
A taxa de limpeza, no valor de R$ [valor], será paga [antecipadamente / no check-in] e [não será reembolsada / será reembolsada se o cancelamento ocorrer com X dias de antecedência].
Comentário: o Art. 49 permite o pagamento antecipado de todo o período. Separe o aluguel da taxa de limpeza para transparência e para facilitar eventuais disputas.
CLÁUSULA 6 — DA GARANTIA
O Locatário deposita, a título de caução, o valor de R$ [valor] correspondente a [número] vez(es) o valor total do período. O valor será devolvido em até 30 dias após o término do contrato, descontados eventuais danos ao imóvel ou aos bens do Inventário, devidamente documentados.
CLÁUSULA 7 — DAS REGRAS DE USO
7.1 O número máximo de hóspedes é de [número] pessoas. A permanência de hóspedes além desse número sem autorização expressa do Locador gera multa de R$ [valor] por pessoa por noite, sem prejuízo da rescisão imediata do contrato.
7.2 É vedada a realização de festas, eventos, shows ou qualquer reunião que possa causar perturbação da vizinhança. O descumprimento gera multa de R$ [valor] e rescisão imediata.
7.3 [Animais de estimação: são / não são permitidos. Se permitidos: especifique tipo e porte.]
7.4 O check-in ocorre até as [hora] e o check-out deve ocorrer até as [hora]. Atraso no check-out gera cobrança de R$ [valor] por hora ou fração.
CLÁUSULA 8 — DAS MULTAS E RESCISÃO
O descumprimento de qualquer cláusula deste contrato pelo Locatário autoriza o Locador a rescindir o contrato imediatamente, sem devolução proporcional do valor pago, e a cobrar multa de R$ [valor], sem prejuízo de indenização por danos.
CLÁUSULA 9 — DO FORO
As partes elegem o foro da comarca de [cidade] para dirimir quaisquer controvérsias oriundas deste contrato.
Assinaturas do Locador, Locatário e duas testemunhas.
O Que Fazer Se o Hóspede Não Sair No Prazo
Se o hóspede permanecer no imóvel após o término do contrato sem acordo para renovação, o proprietário pode:
Notificar formalmente o hóspede pela via extrajudicial ou judicial exigindo a desocupação imediata.
Se não houver desocupação voluntária, ajuizar ação de despejo por término de prazo, que na locação por temporada tem rito mais rápido do que a locação residencial comum.
O proprietário não pode, em hipótese alguma, forçar a entrada no imóvel, cortar serviços essenciais ou remover os pertences do hóspede por conta própria. Essas ações configuram esbulho possessório e podem resultar em ação criminal contra o proprietário.
A Facilite Pode Ajudar Com a Parte Fiscal do Seu Aluguel por Temporada
O contrato cuida da relação com o hóspede. A parte fiscal do aluguel por temporada, que envolve carnê-leão mensal e IRPF anual, precisa de acompanhamento contábil. A contabilidade online da Facilite é especializada em atividades de aluguel por temporada e pode ajudar com a organização tributária do início ao fim.
FAQ: Contrato de Aluguel por Temporada
O contrato de aluguel por temporada é obrigatório? Não é obrigatório por lei, mas é altamente recomendado. Sem contrato escrito, o proprietário não tem base documental para cobrar por danos, exigir a saída na data acordada ou fazer cumprir as regras de uso do imóvel.
Qual é o prazo máximo do aluguel por temporada? 90 dias corridos, conforme o artigo 48 da Lei 8.245/91. Acima desse prazo, o contrato se converte automaticamente em locação residencial padrão, com todas as proteções ao inquilino que isso implica.
Posso cobrar o aluguel inteiro antes da entrada do hóspede? Sim. O artigo 49 da Lei 8.245/91 autoriza expressamente o pagamento antecipado de todo o período na locação por temporada. É a única modalidade de locação em que isso é permitido.
O Airbnb substitui o contrato por temporada? Parcialmente. O sistema da plataforma cobre o pagamento e as avaliações, mas não define condições específicas como limite de hóspedes, proibição de festas, regras sobre pets, horários de check-in/out ou penalidades por dano além do que o AirCover cobre. O contrato próprio preenche essas lacunas.
Posso fazer dois contratos seguidos com o mesmo hóspede para ficar além de 90 dias? Não de forma segura. Tribunais têm recaracterizado contratos sucessivos com o mesmo locatário no mesmo imóvel como locação residencial comum, especialmente quando claramente concebidos para contornar o limite de 90 dias.
O que acontece se o hóspede não sair no prazo? O proprietário deve notificar formalmente o hóspede e, se necessário, ajuizar ação de despejo. Não é permitido forçar a entrada, cortar serviços ou remover pertences do hóspede por conta própria.
O condomínio pode proibir aluguel por temporada? Sim. Desde a decisão da 2ª Seção do STJ de 7 de maio de 2026 (REsp 2.121.055/MG), a oferta de imóvel em plataformas de curta temporada em condomínios residenciais exige autorização prévia de 2/3 dos condôminos em assembleia. Sem essa aprovação, o condomínio pode proibir e buscar liminar. A decisão não se aplica a imóveis independentes fora de regime de condomínio.
O Que É a Locação por Temporada na Lei
A locação por temporada é uma categoria jurídica específica da Lei do Inquilinato. O artigo 48 define como locação por temporada aquela destinada à residência temporária do locatário, por prazo determinado, para uma das seguintes finalidades: lazer, realização de cursos, tratamento de saúde, realização de obras no imóvel principal do locatário, feiras, congressos e outros eventos similares.
O que isso significa para quem aluga pelo Airbnb: a hospedagem turística se enquadra na hipótese de lazer, que é a mais ampla e a mais usada. Isso dá ao contrato de temporada base legal sólida para regular esse tipo de hospedagem.
O que não é locação por temporada: estadia de mais de 90 dias, contratos sem finalidade temporária específica, ou contratos em que a destinação real é moradia permanente. Se essas situações ocorrerem, a locação pode ser re-caracterizada como residencial comum pela Justiça, com todas as proteções que o inquilinato dá ao locatário e que dificultam a retomada do imóvel pelo proprietário.
O Prazo de 90 Dias: O Limite Que Você Não Pode Ultrapassar
O prazo máximo do contrato de aluguel por temporada é de 90 dias corridos. Este é o limite estabelecido pelo artigo 48 da Lei 8.245/91 e ele tem uma consequência direta que todo proprietário precisa conhecer.
Se o hóspede permanecer no imóvel depois de 90 dias sem que o proprietário tome providências formais, o contrato se converte automaticamente em locação residencial padrão por prazo indeterminado, nos termos do artigo 50. Isso significa que o proprietário perde o direito de reaver o imóvel imediatamente: passa a se aplicar o regime da locação residencial comum, com todas as proteções ao inquilino, prazo para notificação e possibilidade de resistência à desocupação.
Como evitar essa situação:
Se quiser renovar uma estadia que se aproxima de 90 dias, formalize a renovação com novo contrato antes do vencimento do primeiro e certifique-se de que o total dos dois contratos não ultrapassa os 90 dias.
Se quiser que o hóspede saia exatamente na data acordada, inclua no contrato uma cláusula improrrogável com hora e data de saída e, se necessário, envie notificação formal antes do vencimento. O silêncio do proprietário é interpretado pela lei como concordância com a permanência.
Para estadias longas que ultrapassarão 90 dias, use a locação residencial padrão desde o início: não tente contornar o limite fragmentando o período em contratos menores sucessivos com o mesmo locatário para o mesmo imóvel, porque tribunais têm recaracterizado esse tipo de manobra.
O Que o Contrato de Temporada Deve Ter Obrigatoriamente
Independente do valor ou duração da hospedagem, o contrato precisa ter:
Qualificação completa das partes. Nome completo, CPF, RG, endereço, telefone e e-mail do locador (proprietário) e do locatário (hóspede). Para locatário estrangeiro, passaporte.
Descrição detalhada do imóvel. Endereço completo incluindo número e complemento, tipo de imóvel (apartamento, casa, quarto), metragem e número de cômodos.
Prazo determinado com data e hora. Data e horário exatos de início e de término. O artigo 48 exige prazo determinado: um contrato sem data de saída definida não é contrato de temporada, é locação por prazo indeterminado.
Finalidade da locação. Lazer, trabalho temporário, tratamento de saúde ou outra finalidade prevista na lei. Essa cláusula é importante porque documenta que a estadia tem caráter temporário.
Inventário do imóvel. Lista dos móveis, eletrodomésticos e utensílios que equipam o imóvel. O inventário é a base para cobrar indenização por danos: sem ele, é a palavra do proprietário contra a do hóspede.
Valor e forma de pagamento. O valor total do período (ou o valor por diária se preferir), quando e como será pago. Inclua se há taxa de limpeza e se ela está incluída no valor ou é cobrada separadamente.
Garantia e condições de devolução. Qual a garantia exigida, o valor e as condições de devolução ao término.
Regras de uso. O que o hóspede pode e não pode fazer no imóvel durante a hospedagem.
Assinaturas. Locador, locatário e duas testemunhas. Para validade mais robusta, especialmente em valores altos, o reconhecimento de firma das assinaturas é recomendado.
Cláusulas Que Protegem o Proprietário e Que o Airbnb Não Cobre
Além das cláusulas obrigatórias, existem situações específicas que o contrato próprio resolve de forma muito mais clara do que as políticas da plataforma:
Limite de hóspedes. Defina o número máximo de pessoas que podem ocupar o imóvel simultaneamente. O Airbnb registra o número de hóspedes declarado na reserva, mas não impede que o locatário traga mais pessoas. O contrato com cláusula de limite e multa por descumprimento dá base para cobrar ou para rescindir.
Proibição de festas e eventos. O Airbnb tem políticas contra festas, mas a aplicação no imóvel depende de você. Uma cláusula contratual com multa específica por organização de festas ou eventos no imóvel é mais direta e imediatamente acionável.
Política de pets. Defina se animais são permitidos, quais tipos e qual o porte máximo. Inclua cláusula de responsabilidade por danos causados por animais do hóspede.
Horário de check-in e check-out. Horários precisos para entrada e saída, com multa por atraso no check-out. Diária extra pelo atraso é uma alternativa que muitos contratos adotam.
Taxa de limpeza. Se cobrada separadamente, especifique o valor e se é devolvida em alguma condição.
Política de cancelamento. Quais as regras de reembolso caso o hóspede cancele a reserva com antecedência. Essa cláusula complementa a política de cancelamento da plataforma, mas só tem validade entre as partes no contrato próprio.
Pagamento Antecipado e Caução: O Que a Lei Permite
A locação por temporada é a única modalidade de locação em que a lei expressamente permite que o locador cobre o valor integral do período de forma antecipada, antes da entrada do hóspede. O artigo 49 da Lei 8.245/91 prevê essa possibilidade, que não existe no aluguel residencial comum.
Além do pagamento antecipado, o proprietário pode exigir garantia. As opções mais comuns são:
Caução em dinheiro: entre 1 e 3 vezes o valor do período de locação. O valor deve ser depositado em conta poupança em nome do hóspede e devolvido em até 30 dias após o término do contrato, descontados eventuais danos comprovados com documentação.
Caução em bens: veículo ou imóvel como garantia, menos comum mas previsto em lei.
Seguro-fiança: contratado pelo hóspede junto a uma seguradora.
Na prática, para hospedagens via Airbnb de curta duração (fins de semana, semanas), a combinação de pagamento antecipado via plataforma mais caução em dinheiro no check-in é o modelo mais usado. Para estadias mais longas (um mês ou mais), o seguro-fiança pode ser mais adequado.
O Airbnb Substitui o Contrato? Não Completamente
O sistema do Airbnb documenta a reserva, processa o pagamento, registra as avaliações e opera o programa de garantias da plataforma (AirCover). Para a maioria das hospedagens, isso é suficiente.
O contrato próprio se torna relevante quando:
O dano causado pelo hóspede ultrapassa o que o AirCover cobre ou o que a plataforma reembolsa no processo de resolução de disputas. A situação envolve comportamentos que precisam de base contratual para ação judicial, como ultrapassar o limite de hóspedes ou realizar festas. A estadia é longa (várias semanas), o valor é alto ou o imóvel tem características especiais que tornam o risco de dano mais relevante. Você quer definir condições que a plataforma não permite configurar (como pets de porte específico ou regras de uso específicas do imóvel).
O Que Mudou com o STJ em Maio de 2026
Em 7 de maio de 2026, a 2ª Seção do Superior Tribunal de Justiça decidiu, por 5 votos a 4, no REsp 2.121.055/MG, relatado pela ministra Nancy Andrighi, que a oferta de imóvel residencial em plataformas de curta temporada como o Airbnb exige autorização prévia de 2/3 dos condôminos em assembleia, com alteração da convenção do condomínio. Sem essa aprovação, o condomínio pode proibir, multar e buscar liminar para suspender a atividade.
O que isso muda na prática para proprietários que alugam pelo Airbnb em apartamentos:
Se o seu condomínio nunca discutiu o assunto em assembleia e a convenção não permite expressamente, a atividade está em risco jurídico após essa decisão. Se a convenção proíbe, o risco de ação judicial é alto. Se a convenção permite ou se o condomínio aprovou em assembleia com 2/3, a atividade continua regular.
Importante: a decisão se aplica a imóveis em regime de condomínio residencial. Para casas e imóveis independentes fora de condomínio, a decisão não tem impacto. A decisão não vincula obrigatoriamente o Judiciário por não ter sido proferida em recurso repetitivo, mas consolida o entendimento das duas turmas de direito privado do STJ e deve orientar as instâncias inferiores.
Tributação: Quanto Você Paga de Imposto Sobre o Aluguel por Temporada
Os rendimentos de aluguel por temporada são tributados como rendimentos de aluguel comuns, pela tabela progressiva do IR. Não existe uma alíquota única: o imposto varia conforme o total de rendimentos recebidos no mês.
O recolhimento é feito mensalmente pelo carnê-leão, até o último dia útil do mês seguinte ao recebimento. No ano seguinte, esses valores são incluídos na declaração anual do IRPF.
Com a Reforma Tributária, o IBS e a CBS passam a incidir sobre aluguéis de curta duração para quem tiver mais de 3 imóveis alugados e faturar mais de R$ 240 mil por ano com essa atividade. Abaixo desses dois limites simultâneos, a tributação continua sendo apenas o IR via carnê-leão, como é hoje. A transição vai até 2033.
Modelo de Contrato Comentado
O contrato de aluguel por temporada não tem formato único obrigatório, mas precisa cobrir as cláusulas descritas acima. O modelo abaixo é simplificado e comentado para facilitar a compreensão. Para contratos com valores elevados, períodos longos ou situações específicas, a revisão por advogado é recomendada.
CONTRATO DE LOCAÇÃO POR TEMPORADA (Art. 48 da Lei nº 8.245/91)
CLÁUSULA 1 — DAS PARTES
Locador: [Nome completo], [nacionalidade], [estado civil], CPF nº [xxx], RG nº [xxx], residente em [endereço completo].
Locatário: [Nome completo], [nacionalidade], [estado civil], CPF nº [xxx], RG nº [xxx], residente em [endereço completo].
Comentário: inclua telefone e e-mail de ambas as partes para facilitar a comunicação durante a hospedagem.
CLÁUSULA 2 — DO IMÓVEL
O Locador cede ao Locatário, para uso temporário e exclusivo, o imóvel situado em [endereço completo], composto por [descrição dos cômodos], devidamente descrito no Inventário em Anexo.
Comentário: o Inventário em Anexo é obrigatório. Liste todos os móveis, eletrodomésticos e utensílios, com estado de conservação de cada item. Fotos assinadas pelas partes reforçam a documentação.
CLÁUSULA 3 — DO PRAZO
A locação tem início em [data] às [hora] e término em [data] às [hora], sendo o prazo total de [número] dias, improrrogável.
Comentário: o prazo máximo é de 90 dias corridos. A palavra "improrrogável" é importante para evitar a conversão automática em locação residencial se o hóspede tentar permanecer além da data de saída.
CLÁUSULA 4 — DA FINALIDADE
A presente locação tem por finalidade [lazer / realização de curso / tratamento de saúde / outra finalidade prevista no Art. 48], sendo vedado o uso para moradia permanente ou outra finalidade não prevista neste contrato.
CLÁUSULA 5 — DO VALOR E DO PAGAMENTO
O valor total da locação é de R$ [valor], a ser pago antecipadamente em [forma e prazo de pagamento].
A taxa de limpeza, no valor de R$ [valor], será paga [antecipadamente / no check-in] e [não será reembolsada / será reembolsada se o cancelamento ocorrer com X dias de antecedência].
Comentário: o Art. 49 permite o pagamento antecipado de todo o período. Separe o aluguel da taxa de limpeza para transparência e para facilitar eventuais disputas.
CLÁUSULA 6 — DA GARANTIA
O Locatário deposita, a título de caução, o valor de R$ [valor] correspondente a [número] vez(es) o valor total do período. O valor será devolvido em até 30 dias após o término do contrato, descontados eventuais danos ao imóvel ou aos bens do Inventário, devidamente documentados.
CLÁUSULA 7 — DAS REGRAS DE USO
7.1 O número máximo de hóspedes é de [número] pessoas. A permanência de hóspedes além desse número sem autorização expressa do Locador gera multa de R$ [valor] por pessoa por noite, sem prejuízo da rescisão imediata do contrato.
7.2 É vedada a realização de festas, eventos, shows ou qualquer reunião que possa causar perturbação da vizinhança. O descumprimento gera multa de R$ [valor] e rescisão imediata.
7.3 [Animais de estimação: são / não são permitidos. Se permitidos: especifique tipo e porte.]
7.4 O check-in ocorre até as [hora] e o check-out deve ocorrer até as [hora]. Atraso no check-out gera cobrança de R$ [valor] por hora ou fração.
CLÁUSULA 8 — DAS MULTAS E RESCISÃO
O descumprimento de qualquer cláusula deste contrato pelo Locatário autoriza o Locador a rescindir o contrato imediatamente, sem devolução proporcional do valor pago, e a cobrar multa de R$ [valor], sem prejuízo de indenização por danos.
CLÁUSULA 9 — DO FORO
As partes elegem o foro da comarca de [cidade] para dirimir quaisquer controvérsias oriundas deste contrato.
Assinaturas do Locador, Locatário e duas testemunhas.
O Que Fazer Se o Hóspede Não Sair No Prazo
Se o hóspede permanecer no imóvel após o término do contrato sem acordo para renovação, o proprietário pode:
Notificar formalmente o hóspede pela via extrajudicial ou judicial exigindo a desocupação imediata.
Se não houver desocupação voluntária, ajuizar ação de despejo por término de prazo, que na locação por temporada tem rito mais rápido do que a locação residencial comum.
O proprietário não pode, em hipótese alguma, forçar a entrada no imóvel, cortar serviços essenciais ou remover os pertences do hóspede por conta própria. Essas ações configuram esbulho possessório e podem resultar em ação criminal contra o proprietário.
A Facilite Pode Ajudar Com a Parte Fiscal do Seu Aluguel por Temporada
O contrato cuida da relação com o hóspede. A parte fiscal do aluguel por temporada, que envolve carnê-leão mensal e IRPF anual, precisa de acompanhamento contábil. A contabilidade online da Facilite é especializada em atividades de aluguel por temporada e pode ajudar com a organização tributária do início ao fim.
FAQ: Contrato de Aluguel por Temporada
O contrato de aluguel por temporada é obrigatório? Não é obrigatório por lei, mas é altamente recomendado. Sem contrato escrito, o proprietário não tem base documental para cobrar por danos, exigir a saída na data acordada ou fazer cumprir as regras de uso do imóvel.
Qual é o prazo máximo do aluguel por temporada? 90 dias corridos, conforme o artigo 48 da Lei 8.245/91. Acima desse prazo, o contrato se converte automaticamente em locação residencial padrão, com todas as proteções ao inquilino que isso implica.
Posso cobrar o aluguel inteiro antes da entrada do hóspede? Sim. O artigo 49 da Lei 8.245/91 autoriza expressamente o pagamento antecipado de todo o período na locação por temporada. É a única modalidade de locação em que isso é permitido.
O Airbnb substitui o contrato por temporada? Parcialmente. O sistema da plataforma cobre o pagamento e as avaliações, mas não define condições específicas como limite de hóspedes, proibição de festas, regras sobre pets, horários de check-in/out ou penalidades por dano além do que o AirCover cobre. O contrato próprio preenche essas lacunas.
Posso fazer dois contratos seguidos com o mesmo hóspede para ficar além de 90 dias? Não de forma segura. Tribunais têm recaracterizado contratos sucessivos com o mesmo locatário no mesmo imóvel como locação residencial comum, especialmente quando claramente concebidos para contornar o limite de 90 dias.
O que acontece se o hóspede não sair no prazo? O proprietário deve notificar formalmente o hóspede e, se necessário, ajuizar ação de despejo. Não é permitido forçar a entrada, cortar serviços ou remover pertences do hóspede por conta própria.
O condomínio pode proibir aluguel por temporada? Sim. Desde a decisão da 2ª Seção do STJ de 7 de maio de 2026 (REsp 2.121.055/MG), a oferta de imóvel em plataformas de curta temporada em condomínios residenciais exige autorização prévia de 2/3 dos condôminos em assembleia. Sem essa aprovação, o condomínio pode proibir e buscar liminar. A decisão não se aplica a imóveis independentes fora de regime de condomínio.
A maioria dos proprietários que aluga pelo Airbnb parte do pressuposto de que o contrato da plataforma é suficiente. Para as reservas que correm bem, é. Para as que não correm, o contrato da plataforma tem limitações importantes: ele regula a relação entre você e a plataforma, não a relação direta entre você e o hóspede, e ele não cobre situações específicas como limite de hóspedes, proibição de festas, regras sobre pets, danos não cobertos pela garantia da plataforma ou horários de check-in e check-out além dos padrões.
O contrato de aluguel por temporada, previsto nos artigos 48 a 50 da Lei 8.245/91 (a Lei do Inquilinato), existe precisamente para preencher essas lacunas. Ele é celebrado entre o proprietário e o hóspede e define, com força legal, as condições específicas de cada hospedagem. Este artigo explica o que a lei exige, o que as cláusulas mais importantes significam na prática e como o contrato se encaixa na operação de aluguel por temporada em 2026.
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